Deu-me para isto...

16:48

Não sei se é um lugar comum, nem sequer se faz algum sentido para alguém que não eu, mas a verdade é que talvez pelo fim da minha Licenciatura estar relativamente próximo (ou pelo menos eu assim o espero) estou com uma tendência extrema em olhar para trás. Talvez também seja a PPD, que me veio lembrar (numa má altura, devo dizer) que a minha infância terminou, e a adolescência foi com ela por arrasto e que não, não é por me tratarem como uma miúda de 14 a 16 anos quando entro numa loja (porque obviamente aparento ter essa idade e chegará o dia em que agradecerei por isso) que eu deixo de ter 20 anos e de ser legal e fisicamente uma jovem adulta (e não, não me atreverei a empregar o termo "mulherzinha", que a minha avó insiste em utilizar desde os meus... 10 anos ou algo parecido).

Seja como for, ao fazer esta análise no outro dia, percebi que estou no limbo. A verdade é que toda a gente diz que a adolescência é uma fase difícil, de experiências, de desafiar os pais e blá blá blá, mas vamos comparar todas as fases da vida normal de um ser humano e analisar a questão por um momento. A infância é o momento para brincadeiras, onde a imaginação é ou deverá ser completamente livre e podemos ser quem quisermos quando quisermos e estamo-nos simplesmente nas tintas se alguém acha ou não patético o que estamos a fazer de momento. Já na adolescência é suposto que ganhemos consciência do que é a sociedade e de como interagir com outros e fazer parte de algo extra-família. É uma fase de desejo de integração, de medo de rejeição e em que é difícil aceitarmos os outros, mas principalmente a nós mesmos. E isso tem os seus custos, é claro, e somos vistos como bestas que pensam que sabem tudo (o que não deixa de ser verdade) e que fazem um milhão de disparates para chamar a atenção e formar a personalidade. Mas no fim tudo é perdoado e desculpado, porque afinal "os adolescentes são mesmo assim" e "coitadinho, ainda não sabe quem é nem o que quer da vida". E depois chega um momento sem qualquer tipo de aviso em que de algum modo deixamos de ser adolescentes sem nos apercebermos bem desse facto. E a única verdadeira diferença é que passa a haver culpabilização pelos nossos próprios actos. De algum modo, a desculpa do "é adolescente" já não funciona, porque agora somos cidadãos supostamente conscientes e devemos ser pessoas a começar a tecer objectivos e devemos, mesmo não sabendo ao certo para onde vamos, pelo menos ter uma ideia do que queremos para a vida. 

O que ninguém fala nem ninguém te avisa é que quando olhas para o lado e paras por um momento, o espelho mostra-te alguém com 21 anos, um canudo na mão e uma profissão que deverias exercer toda a vida, que não sabe quem é nem o que quer fazer. Ninguém aos 15 anos, quando é suposto escolheres uma área de estudos, te avisa que dali a 3 anos, quando acabares o secundário, não vais ser a mesma pessoa do que eras quando o começaste. E ninguém te diz quando te candidatas a um curso que a pessoa que o vai concluir não é a mesma pessoa que se candidatou a ele. A essência mantém-se, sim, e talvez a paixão pelo que escolheste fazer esteja fortalecida, mas o modo de ver as coisas, de encarar o mundo e principalmente as outras pessoas altera-se drasticamente. E quando, num qualquer dia, olhas para trás e tudo, todo o sonho, toda a magia, toda a felicidade da infância parece desaparecer por um único momento, aí apercebes-te que de algum modo perdeste a parte em que te tornaste adulto.

O limbo é aquele sítio em que não somos carne nem peixe, em que és adulto, mas ninguém te considera como tal (nem como adolescente, já gora) em que devemos saber quem somos, mas não como é a vida e em que é suposto que aceitemos pacatamente os conselhos dos sábios mais velhos, porque já temos idade suficiente para perceber que eles, de facto, sabem mais qualquer coisinha do que nós. E nós aceitamos, ouvimos e calamos com a sensatez suficiente para admitir que eles talvez estejam certos, mas que é melhor fazer de outro modo para ver no que dá, aceitando as consequências. A verdade é que quando estás no limbo continuas sem saberes ao certo quem és nem o que queres da vida, mas sem as desculpas que tinhas antes.

Hoje olhei para o espelho e reparei que cada vez gosto mais da pessoa em que me torno cada dia. Mas isso não me impede de estar no limbo e não saber minimamente o que quero da minha vida, quando a sociedade mo exige na minha condição de jovem adulta. Reparei que se soubesse o que sei agora, talvez as coisas fossem completamente diferentes e eu não estivesse onde estou. Mas se tudo o que fiz me trouxe até aqui, a verdade é que não trago arrependimentos no coração.

[Continua... (eventualmente)]

P.S. - Acabei de ler isto integralmente pela 3ª vez e se continuar com estes devaneios ainda lhes começo a chamar "Crónicas à Anatomia de Grey".

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2 comentários

  1. Ai, rapariga, como compreendo e concordo contigo!
    Ironicamente, ontem foi uma "daquelas noites" em que me rebolei até adormecer (tarde) exactamente a pensar no meu reflexo actual, no quão "nada" eu tenho conseguido até agora por falta de conhecimento do que quero da vida, do medo e incerteza que isso me dá... Enfim, de uma coisa temos a certeza: sozinhas não estamos.
    Igualmente essa discrepância: se soubesse o que sei hoje, teria feito diferente, contudo, se tivesse feito diferente, não seria a pessoa que sou hoje. E não sei exactamente quando isso aconteceu, mas algures deixei de ser a adolescente sem amor próprio para gostar (bastante) de quem sou agora - seja lá o que eu for. Se não tivesse feito aquelas escolhas, provavelmente não seria essa pessoa, de quem gosto.
    Raios partam!

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  2. Ahah, afinal não são só ideias da minha cabeça! :D

    "Raios partam" teria, de facto, sido uma frase mais eficiente para conclusão, mas pronto! XD

    Anyway, se a vida é assim then BRING IT ON BITCHES! XD

    ResponderEliminar

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